Notas de aula · Encontro 09 · 29/09

Capital humano: escola não é aprendizagem

Pergunta central

Por que anos de estudo não garantem produtividade? Não é pergunta sobre escola ruim, é sobre a variável: na Semana 3 o capital humano entrou no Solow aumentado pelo índice `hc` da PWT — anos de estudo vezes um retorno suposto por ano. Se um terço desses anos não vira aprendizagem, o fator mais sólido do modelo está inflado.

Conceitos

  • Matrícula — a criança está na escola. O primeiro degrau, e o que subiu no mundo inteiro.
  • Anos de estudo — ficou o tempo previsto. Base do índice `hc` que calibrou o h na Semana 3.
  • Aprendizagem — sabe fazer algo que não sabia. É o degrau que falha e o que a produtividade precisa.
  • Retornos à escolaridade — o que o mercado paga por um ano a mais; positivo em quase todo país medido.
  • Sinalização — o diploma informa quem cumpre prazo, e paga mesmo sem aprendizagem — valor relativo.
  • Saúde e nutrição — chegar vivo à idade de trabalhar e ter comido antes dos seis anos.

O mecanismo

Matricular, ficar e aprender vinham sendo tratados como sinônimos, e o degrau que falha é o segundo para o terceiro. Medi-lo exige converter tempo sentado em tempo que rendeu: é o que fazem os anos ajustados, os anos esperados vezes a nota dividida por 625. A falha não é só qualidade de escola: a aprendizagem depende do que a criança traz de casa, e por isso o Índice de Capital Humano soma escola, sobrevivência e nutrição.

O efeito sobre o modelo da Semana 3 é o ponto da noite. O índice `hc` não é ingênuo — pondera os anos por um retorno estimado —, mas supõe esse retorno igual em toda parte, em vez de medir o que foi aprendido. Se um terço do tempo é nada, o h captura ruído com sinal: superestimado onde se matricula bem e ensina mal, subestimado onde é o contrário.

A evidência

O recorte de 21 países confronta matrícula, anos de estudo e aprendizagem, derrubando três explicações. Não é renda: África do Sul e Vietnã têm renda quase igual e o Vietnã entrega quase o dobro de anos aprendidos — mesmo par da Semana 1, outra variável dependente. Não é matrícula: Gana matricula mais que a Índia e entrega menos, perdendo mais da metade do tempo escolar. Não é destino de país pobre: o Quênia tem a menor renda e nota acima de dez países mais ricos.

A ponte com o resultado no mercado de trabalho é de Hanushek e Woessmann, em 50 países entre 1960 e 2000: a nota se associa fortemente ao crescimento e, sobretudo, **os anos de estudo perdem significância quando a nota entra na regressão**. A variável do Solow aumentado é derrubada pela variável que deveria estar medindo. Vale a ressalva da Semana 4: é corte transversal, e nenhum país foi sorteado para ter nota melhor.

Números para lembrar

  • 7,87 de 11,91 — anos de escola do Brasil que viram aprendizagem; perdem-se 4,03 · HCI 2020
  • 519 contra 512 — nota do Vietnã contra a dos EUA, com um quinto da renda americana · HCI 2020
  • 10,68 contra 5,60 — anos aprendidos, Vietnã contra África do Sul, de renda igual · HCI 2020
  • 455 com US$ 5.057 — Quênia: menor renda do recorte, nota acima de dez mais ricos · HCI 2020
  • ~2 pontos — crescimento anual associado a um desvio-padrão na nota · Hanushek e Woessmann
  • 8% contra 18,2% — desnutrição crônica, Brasil (2019) e Vietnã (2023): alimenta melhor, aprende pior

A controvérsia

Se o ano não ensina, por que o mercado paga por ele? Três respostas competem e nenhuma foi eliminada. O ano ensina e a nota é que mede mal, capturando um pedaço estreito do que a escola produz. Ou o ano sinaliza: o diploma informa quem aguenta onze anos de prazo cumprido, e aí o valor é relativo — todo mundo estudar um ano a mais renderia zero. As duas são gêmeas nos dados: em ambas, mais anos e mais salário andam juntos. A terceira é a objeção da Semana 4 com outra variável — o que varia junto é a pessoa.

O que esta aula não resolve

Não decide entre as três respostas: a evidência sustenta que a nota carrega a informação que o ano não carrega, não que melhorar a nota produza crescimento. Duas lacunas declaradas: a safra do índice é **2020 e não há edição mais nova**, então os dados são pré-pandemia — a hierarquia entre países resiste a um choque comum, o nível não; e a camada brasileira não entrou, porque o servidor do INEP não responde e os dois números públicos de aprendizado adequado são de safras e populações diferentes.

O produto da aula

Uma folha por grupo com hipótese, mecanismo e indicador de resultado sobre por que o Brasil perde 4,03 dos 11,91 anos. Testável quer dizer que existe um resultado que a derrubaria, e o grupo sabe qual; o mecanismo cabe em três elos; o indicador nomeia base e unidade de observação. É bom quando explicaria também o Quênia — o que só serve para o Brasil é descrição, não mecanismo.

Leituras

  • Hanushek e Woessmann: habilidades cognitivas contra anos de estudo na regressão de crescimento.
  • Banco Mundial, *World Development Report 2018*: a crise de aprendizagem e a origem dos anos ajustados.
  • Retomada obrigatória — Mankiw, Romer e Weil (Semana 3): o papel dos anos de estudo no Solow aumentado.