Caderno de notas

As notas de aula, em sequência

Uma nota por encontro, com a mesma estrutura em todas: a pergunta, os conceitos, o mecanismo, a evidência, os números, a controvérsia, o que ficou em aberto e o que você entregou. Cada uma cabe em duas páginas impressas — imprimir esta página sai como um maço, uma nota por folha.

Notas de aula · Encontro 01 · 28/07

Desenvolvimento: de quê e para quem?

Pergunta central

Crescer é suficiente para desenvolver? Renda maior e vida melhor costumam andar juntas, mas não por necessidade — e a aula é sobre os casos em que se separam.

Conceitos

  • PIBvalor de tudo o que uma economia produz num período; é fluxo de produção, e não uma medida de bem-estar.
  • Bem-estaro que a vida das pessoas efetivamente é: quanto vivem, o que aprendem, de que conseguem participar.
  • Pobrezaprivação vivida no dia a dia, e não só renda abaixo de uma linha; o agregado esconde como ela é vivida.
  • Desigualdadecomo a renda se reparte dentro do país; a mesma renda média comporta vidas muito distintas.
  • Capacidadeso conjunto de coisas que uma pessoa consegue de fato ser e fazer, na formulação de Sen.
  • Liberdadeo fim do desenvolvimento em Sen: desenvolver é expandir as liberdades reais das pessoas, não só a renda.

O mecanismo

Um país pode dobrar o PIB per capita vendendo uma commodity — petróleo, minério — e a expectativa de vida da população não se mover quase nada. A renda é meio; o que interessa é aquilo em que ela é convertida: saúde, aprendizagem, longevidade, participação. Sen troca a pergunta "quanto se produz?" por "o que as pessoas conseguem ser e fazer?".

Medir capacidade obriga a escolher dimensões. O IDH escolhe três — renda, saúde e educação — e essa escolha já é uma decisão de valor, não um passo técnico: quem define o indicador define o que conta como progresso.

A evidência

Seis países, do mais rico ao mais pobre, comparados pelo que convertem de renda em vida: Gabão e Guiné Equatorial são mais ricos que o Sri Lanka e vivem, respectivamente, 9,2 e 13,8 anos a menos; o Sri Lanka tem a maior média de anos de estudo dos seis, 10,8 anos, com a segunda menor renda. África do Sul e Vietnã fecham o outro lado: renda média parecida, vidas diferentes, porque a desigualdade interna difere.

O mesmo teste desce de escala. No Brasil, renda e bem-estar caminham juntos em algumas dimensões e se descolam em outras; e o caso capixaba de Presidente Kennedy repete o fenômeno num único município — royalties de petróleo elevaram a renda por habitante sem que o IDHM acompanhasse.

Números para lembrar

  • 13,8 anoso que a Guiné Equatorial vive a menos que o Sri Lanka, sendo mais rica · PNUD/WDI
  • 9,2 anosa mesma conta para o Gabão · PNUD/WDI
  • 10,8 anos de estudoa maior média dos seis países é do segundo mais pobre, o Sri Lanka · PNUD
  • 13.696 habitantesPresidente Kennedy (ES), onde o petróleo não comprou desenvolvimento · IBGE, Censo 2022

A controvérsia

Ravallion, do Banco Mundial, ataca o índice pelo peso: num índice composto os pesos são escolha de valor e não resultado técnico, e a crítica vale igualmente para o IDH e para o placar que a turma montou na oficina. Banerjee e Duflo atacam por outro flanco: mesmo um índice bem escolhido é média, e a média esconde a lógica interna das decisões de quem vive na pobreza.

A defesa possível do índice é modesta e é a que se sustenta: ele não é verdade, é um acordo explícito sobre o que olhar — e explícito é melhor que implícito, que é o que o PIB sozinho faz.

O que esta aula não resolve

Não diz por que uns países ficaram ricos e outros não; diz apenas que "rico" e "desenvolvido" não são a mesma coisa. Não escolhe entre índices concorrentes — mostra que a escolha existe e tem consequência real na alocação de recursos. E não explica o descolamento de Presidente Kennedy: nomeia o fato e deixa a causa para as semanas seguintes.

O produto da aula

Uma nota de 200 palavras com a sua definição operacional de desenvolvimento. Operacional quer dizer que ela diz o que medir, e não só o que valorizar: se não dá para apontar o indicador, ainda não é definição operacional.

Leituras

  • Sen, "The Concept of Development".
  • Banerjee e Duflo, "The Economic Lives of the Poor".
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Notas de aula · Encontro 02 · 04/08

A longa história da prosperidade

Pergunta central

Por que o crescimento moderno começou tão tarde? A pergunta não é por que alguns países são ricos, e sim por que a humanidade inteira passou quase toda a sua história sem crescer.

Conceitos

  • Estagnação malthusianaregime em que ganho de produtividade vira mais gente, e não mais renda por pessoa; a renda oscila e volta.
  • Revolução Industriala ruptura em que produção por pessoa passa a crescer de forma sustentada, e não volta ao patamar anterior.
  • Grande Divergênciao afastamento entre as rendas dos países a partir do século XIX, depois de milênios de níveis parecidos.
  • Quebra estruturalo ano a partir do qual uma série muda de comportamento de forma permanente; é o que a oficina teve de marcar.
  • Estimativa históricanúmero reconstruído a partir de registros fiscais, salários e preços, com margem de erro grande — diferente de observação direta.

O mecanismo

Com terra fixa e tecnologia quase parada, o produto por pessoa depende de quantas pessoas dividem a terra. Melhorar a técnica agrícola aumenta a população, e a população come o ganho: em uma ou duas gerações a renda por pessoa volta ao ponto de partida. É o circuito malthusiano, e ele explica por que a renda de dois milênios oscila sem subir.

O teste sujo desse regime é a Peste Negra: morrer entre um terço e metade da população deixa os sobreviventes mais ricos, porque sobra mais terra por trabalhador. Malthus descreveu corretamente os dez mil anos anteriores e errou em cheio sobre os duzentos seguintes — quando ele publica, o regime que descrevia já estava rachado havia um século na Inglaterra em que vivia.

A evidência

Dois milênios de renda e população, nos cinco países da oficina. A renda inglesa sobe 48% entre 1330 e 1400, cruza o dobro do ano 1000 em 1690, cai de volta abaixo dele em 1710 e só fica acima para sempre a partir de 1720: o que distingue o salto moderno não é o tamanho, é a permanência. Em 1700 a Inglaterra era só uma vez e meia mais rica que a China; China e Índia depois não ficaram para trás por crescer devagar — elas empobreceram.

Nenhum número anterior ao século XIX é observação direta: são estimativas reconstruídas, disputadas. Isso sustenta "séculos de estagnação seguidos de uma ruptura"; não sustenta comparações de 10% entre dois países em dois séculos distintos.

Números para lembrar

  • +48%a renda inglesa por pessoa entre 1330 e 1400, com a Peste Negra no meio · Maddison 2023
  • 1,5 vezquanto a Inglaterra era mais rica que a China em 1700 · Maddison 2023
  • 3,7×a renda brasileira entre 1950 e 1980; em 1990 o Brasil estava mais pobre que em 1980 · Maddison 2023
  • 8,7 → 45 vezesa distância entre o país mais rico e o mais pobre, de 1870 a 1990 · Pritchett (1997)

A controvérsia

Pomeranz: a Grande Divergência pode ser uma boa história pelo motivo errado. Até cerca de 1750 o delta do Yangtzé e a Inglaterra eram economicamente comparáveis, e o que separou os dois teria sido contingência — carvão perto da superfície, colônias — e não superioridade acumulada. O gráfico desta aula não decide essa briga: ele mostra que houve divergência, não por que ela começou onde começou.

Pritchett vira o problema do avesso: o fenômeno dominante dos dois últimos séculos não foi convergência, foi divergência, e ela aumentou — o que é exatamente o contrário do que o modelo da semana seguinte prevê.

O que esta aula não resolve

Não escolhe entre as explicações da ruptura. "Foi instituição", "foi carvão", "foi ciência", "foi império" — todas cabem nas mesmas curvas, e as curvas sozinhas não escolhem entre elas. Também não explica por que o crescimento se espalhou para alguns lugares e não para outros, nem por que a ruptura brasileira, real e rápida, parou.

O produto da aula

A figura comentada sobre a Grande Divergência: a série do seu país, o ano de ruptura marcado, o critério explícito que levou a ele, e de 5 a 8 linhas sobre o que a figura mostra — e, obrigatoriamente, sobre o que ela não consegue mostrar.

Leituras

  • Galor e Weil, sobre a transição do regime malthusiano ao crescimento moderno.
  • Pritchett, "Divergence, Big Time" (1997).
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Notas de aula · Encontro 03 · 11/08

Solow: uma máquina para pensar

Pergunta central

Quanto do crescimento vem de acumular fatores — capital e trabalho — e quanto vem de outra coisa? E o que é essa outra coisa?

Conceitos

  • Estado estacionárioo nível de capital por trabalhador em que investimento e depreciação se igualam; a economia para de crescer por acumulação.
  • Convergênciaa previsão de que, com a mesma tecnologia, quem está mais longe do estado estacionário cresce mais rápido e alcança os ricos.
  • Capital humanoem Mankiw, Romer e Weil, a escolaridade entra como um terceiro fator acumulável no Solow aumentado.
  • Contabilidade do crescimentoΔY/Y = αΔK/K + (1−α)ΔL/L + ΔA/A: decompor o crescimento observado em capital, trabalho e resíduo.
  • Resíduo de Solow (PTF)o que sobra depois de contabilizar os fatores; não é medida de tecnologia, é a diferença entre observado e contabilizado.

O mecanismo

Dobrar as máquinas sem contratar ninguém não dobra a produção: o capital tem retornos decrescentes, e é isso que faz a economia caminhar para um estado estacionário. Poupar mais eleva o nível de renda de longo prazo, mas não a taxa de crescimento permanente — a taxa sobe só durante a transição e volta ao que era.

A conta que sai daí desarma a intuição: dobrar a poupança de 20% para 40% multiplica a renda de longo prazo por √2, cerca de 1,4 vez. Não existe taxa de poupança plausível que feche a distância de quase 4 para 1 entre o Brasil e os Estados Unidos.

A evidência

Calibrar uma economia com o modelo e observar o que ele explica e o que permanece no resíduo. Duas coisas fecham o segmento. A convergência não condicional não aparece nos dados: a correlação entre a renda de 1960 e o crescimento seguinte é −0,08 em 111 países. E a magnitude do erro de calibração é grosseira — o modelo prevê que a Índia deveria ter 99% da renda dos Estados Unidos, e ela tem 9%.

O Brasil entre 1980 e 2000 é o caso limite: capital crescendo 3,5% ao ano, ocupados 2,4% ao ano, e renda por pessoa andando 0,16% ao ano. Somou fatores e rendeu menos que a soma deles: o resíduo é −0,97 ponto ao ano.

Números para lembrar

  • −0,08a correlação entre renda de 1960 e crescimento posterior, em 111 países · PWT 11.0
  • −0,97 ponto ao anoo resíduo brasileiro entre 1980 e 2000 · PWT 11.0
  • 1,4×o ganho de renda de longo prazo ao dobrar a poupança de 20% para 40% · Solow
  • 99% contra 9%a renda da Índia que o modelo prevê, contra a observada, ante os Estados Unidos · PWT 11.0
  • 6,75% e 3,95%o crescimento anual do produto coreano e do brasileiro, 1960–2023 · PWT 11.0

A controvérsia

A defesa do modelo é de Mankiw, Romer e Weil: com capital humano como terceiro fator, o mesmo modelo explica cerca de 80% da variação de renda entre 98 países — e só 24% entre os ricos. O preço não é o que parece: a participação do capital físico volta ao 1/3 observado, mas passa-se a depender de um fator que ninguém mede direto, e continua sem explicação por que poupança e escolaridade diferem entre países. Transfere a pergunta.

Do outro lado, Young e Krugman: o crescimento asiático teria sido mobilização de recursos, não inspiração. A conta da oficina dá resíduo coreano de 2,82 contra 1,7 de Young — e ninguém está errado: ajustando o trabalho por escolaridade, o número vira 1,90. Metade do "nosso" resíduo era escolaridade não contabilizada.

O que esta aula não resolve

O resíduo não distingue tecnologia de má alocação entre firmas, de qualidade institucional, de erro de medida do capital — e é compatível com tudo isso junto. Pior: melhorar a medição dos fatores muda o resíduo sem que nada tenha acontecido na economia. Abramovitz o chamou de "a medida da nossa ignorância", e usá-lo honestamente é usá-lo assim. O modelo também não erra sobre países parecidos convergirem; erra sobre por que os países são diferentes.

O produto da aula

A decomposição do crescimento de um país em capital, trabalho e PTF, refeita com o α do próprio país e com α = 1/3, mais 5 a 8 linhas — incluindo obrigatoriamente uma frase sobre o que o resíduo não consegue distinguir.

Leituras

  • Solow, "A Contribution to the Theory of Economic Growth" (1956).
  • Mankiw, Romer e Weil, "A Contribution to the Empirics of Economic Growth" (1992).
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Notas de aula · Encontro 04 · 18/08

Instituições, geografia e história

Pergunta central

Como se prova que uma causa que agiu há séculos é responsável pela renda de hoje, e como se sabe quando essa prova não está de pé?

Conceitos

  • Persistênciaa hipótese de que um arranjo institucional sobrevive a independências e constituições novas.
  • Variável instrumentalterceira variável que move a causa suspeita sem relação com o resultado.
  • Mecanismo históricoo caminho pelo qual um choque antigo chega até a renda de hoje.
  • Relevânciaa condição testável de um instrumento: ele de fato move a causa suspeita.
  • Exclusãoo instrumento não afeta o resultado por outro caminho; não é testável.
  • Independênciao instrumento não está ligado a outras causas do resultado.

O mecanismo

Acemoglu, Johnson e Robinson propõem a cadeia: mortalidade de europeus nas colônias (séculos XVII a XIX) → colonizar para extrair ou para povoar → instituições coloniais → instituições hoje → renda hoje. Duas hipóteses fortes: o desenho institucional sobreviveu, e a doença de então não tem outro caminho até a produtividade de hoje.

Um instrumento precisa de três condições, e só a primeira é testável — essa assimetria organiza a aula. A condição de que tudo depende não é calculada por software nenhum: defende-se com história, daí as oito páginas de narrativa colonial antes da primeira tabela do artigo.

A evidência

Ler "Colonial Origins" junto de críticas sobre instrumento, amostra e monocausalidade. Números do recorte: primeiro estágio −0,607 (a mortalidade move as instituições), forma reduzida −0,573 (a mortalidade prevê a renda direto, mesmo número nos dois mundos), e a variável instrumental em 0,944 — um ponto a mais de proteção causa 157% mais renda.

A cadeia ainda de pé em 2022: a mortalidade colonial prevê o estado de direito de hoje (−0,354, t = −5,07). Aplicar 0,944 à distância Nigéria–EUA prevê 67 vezes de diferença de renda contra as 30 observadas — erro de medida atenuando o MQO, ou exclusão violada?

Números para lembrar

  • 0,944VI: um ponto a mais de proteção causa 157% mais renda · recorte do curso
  • −0,607primeiro estágio: a mortalidade move as instituições · recorte do curso
  • −0,354mortalidade colonial prevendo o estado de direito de 2022, t = −5,07 · recorte
  • 67× contra 30×diferença de renda que o VI prevê entre EUA/Nigéria, e a observada · recorte
  • 0,29instituições com a malária no segundo estágio, caindo de 0,94 · Sachs (2003)
  • 71taxa de mortalidade que o Brasil compartilha com sete países, 16,7 × 4,25 · Albouy

A controvérsia

Albouy mostra que só 28 dos 64 países têm taxa própria — 42 dividem a sua com alguém, e dezesseis latino-americanos usam mortalidade de bispos multiplicada por um fator. Agrupar o erro-padrão pela repetição não derruba o resultado, mas exige saber a fonte de cada taxa. Sachs argumenta que a malária derruba produtividade hoje por um caminho fora das instituições; Glaeser, La Porta, López-de-Silanes e Shleifer contra-argumentam que o que persistiu foi capital humano — a variável mede desfecho, não regra.

Nunn replica a arquitetura com os quatro tráficos de escravos da África, instrumentados por quatro distâncias. O padrão comum às críticas: cada uma ataca uma das três condições do instrumento, não os números.

O que esta aula não resolve

A crítica de Albouy não é decidível com o dado publicado: "o teste não deu nada" e "não existe teste aqui" são coisas diferentes. A história restringe, mas não determina — Singapura e Malásia têm o mesmo colonizador e a mesma taxa, e hoje divergem em 4,2 vezes de renda, porque o instrumento não separa dentro de um grupo com a mesma taxa.

Para o Brasil o instrumento não carrega informação própria — a taxa de 71 é compartilhada com sete países. E extrapolar o coeficiente de persistência para prever o ganho do Brasil fechando a distância institucional até os EUA é o mesmo erro de Solow com a Índia: correlação entre países lida como botão.

O produto da aula

Um parecer de validade causal em quatro itens: a alegação em uma frase (quem causa o quê, em que população, medido como), a evidência com um número, a ameaça mais séria à identificação com o veredito sobre ela ser testável com o dado disponível, e a conclusão — procede, procede parcialmente, ou não é decidível — com a condição que mudaria esse veredito.

Leituras

  • Acemoglu, Johnson e Robinson (2001) e Nunn (2008) — a mesma arquitetura de instrumento.
  • Albouy (2012) — a crítica de procedência do dado de mortalidade.
  • Sachs (2003) — a crítica geográfica, com o teste que a aula cita.
  • Glaeser, La Porta, López-de-Silanes e Shleifer (2004) — a crítica institucional.
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