Notas de aula · Encontro 02 · 04/08
A longa história da prosperidade
Pergunta central
Por que o crescimento moderno começou tão tarde? A pergunta não é por que alguns países são ricos, e sim por que a humanidade inteira passou quase toda a sua história sem crescer.
Conceitos
- Estagnação malthusiana — regime em que ganho de produtividade vira mais gente, e não mais renda por pessoa; a renda oscila e volta.
- Revolução Industrial — a ruptura em que produção por pessoa passa a crescer de forma sustentada, e não volta ao patamar anterior.
- Grande Divergência — o afastamento entre as rendas dos países a partir do século XIX, depois de milênios de níveis parecidos.
- Quebra estrutural — o ano a partir do qual uma série muda de comportamento de forma permanente; é o que a oficina teve de marcar.
- Estimativa histórica — número reconstruído a partir de registros fiscais, salários e preços, com margem de erro grande — diferente de observação direta.
O mecanismo
Com terra fixa e tecnologia quase parada, o produto por pessoa depende de quantas pessoas dividem a terra. Melhorar a técnica agrícola aumenta a população, e a população come o ganho: em uma ou duas gerações a renda por pessoa volta ao ponto de partida. É o circuito malthusiano, e ele explica por que a renda de séculos oscila sem subir.
O teste sujo desse regime é a Peste Negra: morrer entre um terço e metade da população deixa os sobreviventes mais ricos, porque sobra mais terra por trabalhador. Malthus descreveu corretamente os dez mil anos anteriores e errou em cheio sobre os duzentos seguintes — quando ele publica, o regime que descrevia já estava rachado havia mais de um século na Inglaterra em que vivia.
A evidência
Mil anos de renda e população, do ano 1000 a 2022, nos cinco países da oficina — só Reino Unido e China desde 1000; as outras séries nascem no meio do gráfico, porque antes não há estimativa reconstruída. A renda inglesa sobe 48% entre 1330 e 1400, cruza o dobro do ano 1000 em 1690, cai de volta abaixo dele em 1710 e só fica acima para sempre a partir de 1720: o que distingue o salto moderno não é o tamanho, é a permanência. Em 1700 a Inglaterra era só uma vez e meia mais rica que a China; China e Índia depois não ficaram para trás só por crescer devagar — elas empobreceram: a China vai de US$ 1.543 em 1700 a US$ 799 em 1950, a Índia de US$ 1.264 em 1600 a US$ 850 em 1870. E a estagnação não é só medieval: a renda estimada do Brasil sai de US$ 867 em 1820, sobe 25% até 1870 e volta ao ponto de partida, US$ 874 em 1900.
Nenhum número anterior ao século XIX é observação direta: são estimativas reconstruídas, disputadas. Isso sustenta "séculos de estagnação seguidos de uma ruptura"; não sustenta comparações de 10% entre dois países em dois séculos distintos. E só uma série de séculos, como a da Maddison, mostra o regime malthusiano e data a ruptura: uma série que começa em 1960 não enxerga nenhum dos dois.
Números para lembrar
- +48% — a renda inglesa por pessoa entre 1330 e 1400, com a Peste Negra no meio · Maddison 2023
- 1,5 vez — quanto a Inglaterra era mais rica que a China em 1700 · Maddison 2023
- 3,7× — a renda brasileira entre 1950 e 1980; em 1990 o Brasil estava mais pobre que em 1980 · Maddison 2023
- 8,7 → 45 vezes — a distância entre o país mais rico e o mais pobre, de 1870 a 1990 · Pritchett (1997), que supõe um piso de subsistência para os países sem dado histórico
A controvérsia
Pomeranz: a Grande Divergência pode ser uma boa história pelo motivo errado. Até cerca de 1750 o delta do Yangtzé e a Inglaterra eram economicamente comparáveis, e o que separou os dois teria sido contingência — carvão perto da superfície, colônias — e não superioridade acumulada. O gráfico desta aula não decide essa briga — a série é a média nacional chinesa, e Pomeranz fala da região mais rica: ele mostra que houve divergência, não por que ela começou onde começou.
Pritchett vira o problema do avesso: o fenômeno dominante dos dois últimos séculos não foi convergência, foi divergência, e ela aumentou — o que é exatamente o contrário do que o modelo da semana seguinte prevê.
O que esta aula não resolve
Não escolhe entre as explicações da ruptura. "Foi instituição", "foi carvão", "foi ciência", "foi império" — todas cabem nas mesmas curvas, e as curvas sozinhas não escolhem entre elas. Também não explica por que o crescimento se espalhou para alguns lugares e não para outros, nem por que a ruptura brasileira, real e rápida, parou.
O produto da aula
A figura comentada sobre a Grande Divergência: a série do seu país, o ano de ruptura marcado, o critério explícito que levou a ele, e de 5 a 8 linhas sobre o que a figura mostra — e, obrigatoriamente, sobre o que ela não consegue mostrar.
Leituras
- Galor e Weil, sobre a transição do regime malthusiano ao crescimento moderno.
- Pritchett, "Divergence, Big Time" (1997).