Notas de aula · Encontro 03 · 11/08
Solow: uma máquina para pensar
Pergunta central
Quanto do crescimento vem de acumular fatores — capital e trabalho — e quanto vem de outra coisa? E o que é essa outra coisa?
Conceitos
- Estado estacionário — o nível de capital por trabalhador em que investimento e depreciação se igualam; a economia para de crescer por acumulação.
- Convergência — a previsão de que, com a mesma tecnologia, quem está mais longe do estado estacionário cresce mais rápido e alcança os ricos.
- Capital humano — em Mankiw, Romer e Weil, a escolaridade entra como um terceiro fator acumulável no Solow aumentado.
- Contabilidade do crescimento — ΔY/Y = αΔK/K + (1−α)ΔL/L + ΔA/A: decompor o crescimento observado em capital, trabalho e resíduo.
- Resíduo de Solow (PTF) — o que sobra depois de contabilizar os fatores; não é medida de tecnologia, é a diferença entre observado e contabilizado.
O mecanismo
Dobrar as máquinas sem contratar ninguém não dobra a produção: o capital tem retornos decrescentes, e é isso que faz a economia caminhar para um estado estacionário. Poupar mais eleva o nível de renda de longo prazo, mas não a taxa de crescimento permanente — a taxa sobe só durante a transição e volta ao que era.
A conta que sai daí desarma a intuição: dobrar a poupança de 20% para 40% multiplica a renda de longo prazo por √2, cerca de 1,4 vez. Não existe taxa de poupança plausível que feche a distância de quase 4 para 1 entre o Brasil e os Estados Unidos.
A evidência
Calibrar uma economia com o modelo e observar o que ele explica e o que permanece no resíduo. Duas coisas fecham o segmento. A convergência não condicional não aparece nos dados: a correlação entre a renda de 1960 e o crescimento seguinte é −0,08 em 111 países. E a magnitude do erro de calibração é grosseira — o modelo prevê que a Índia deveria ter 99% da renda dos Estados Unidos, e ela tem 9%.
O Brasil entre 1980 e 2000 é o caso limite: capital crescendo 3,5% ao ano, ocupados 2,4% ao ano, e renda por pessoa andando 0,16% ao ano. Somou fatores e rendeu menos que a soma deles: o resíduo é −0,97 ponto ao ano.
Números para lembrar
- −0,08 — a correlação entre renda de 1960 e crescimento posterior, em 111 países · PWT 11.0
- −0,97 ponto ao ano — o resíduo brasileiro entre 1980 e 2000 · PWT 11.0
- 1,4× — o ganho de renda de longo prazo ao dobrar a poupança de 20% para 40% · Solow
- 99% contra 9% — a renda da Índia que o modelo prevê, contra a observada, ante os Estados Unidos · PWT 11.0
- 6,75% e 3,95% — o crescimento anual do produto coreano e do brasileiro, 1960–2023 · PWT 11.0
A controvérsia
A defesa do modelo é de Mankiw, Romer e Weil: com capital humano como terceiro fator, o mesmo modelo explica cerca de 80% da variação de renda entre 98 países — e só 24% entre os ricos. O preço não é o que parece: a participação do capital físico volta ao 1/3 observado, mas passa-se a depender de um fator que ninguém mede direto, e continua sem explicação por que poupança e escolaridade diferem entre países. Transfere a pergunta.
Do outro lado, Young e Krugman: o crescimento asiático teria sido mobilização de recursos, não inspiração. A conta da oficina dá resíduo coreano de 2,82 contra 1,7 de Young — e ninguém está errado: ajustando o trabalho por escolaridade, o número vira 1,90. Metade do "nosso" resíduo era escolaridade não contabilizada.
O que esta aula não resolve
O resíduo não distingue tecnologia de má alocação entre firmas, de qualidade institucional, de erro de medida do capital — e é compatível com tudo isso junto. Pior: melhorar a medição dos fatores muda o resíduo sem que nada tenha acontecido na economia. Abramovitz o chamou de "a medida da nossa ignorância", e usá-lo honestamente é usá-lo assim. O modelo também não erra sobre países parecidos convergirem; erra sobre por que os países são diferentes.
O produto da aula
A decomposição do crescimento de um país em capital, trabalho e PTF, refeita com o α do próprio país e com α = 1/3, mais 5 a 8 linhas — incluindo obrigatoriamente uma frase sobre o que o resíduo não consegue distinguir.
Leituras
- Solow, "A Contribution to the Theory of Economic Growth" (1956).
- Mankiw, Romer e Weil, "A Contribution to the Empirics of Economic Growth" (1992).