Notas de aula · Encontro 04 · 18/08
Instituições, geografia e história
Pergunta central
Como se prova que uma causa que agiu há séculos é responsável pela renda de hoje, e como se sabe quando essa prova não está de pé?
Conceitos
- Persistência — a hipótese de que um arranjo institucional sobrevive a independências e constituições novas.
- Variável instrumental — terceira variável que move a causa suspeita e só chega ao resultado passando por ela.
- Mecanismo histórico — o caminho pelo qual um choque antigo chega até a renda de hoje.
- Relevância — a condição testável de um instrumento: ele de fato move a causa suspeita.
- Exclusão — o instrumento não afeta o resultado por outro caminho; não é testável.
- Independência — o instrumento não está ligado a outras causas do resultado.
O mecanismo
A correlação entre proteção e renda (0,522: um ponto a mais, 69% mais renda) não prova nada sozinha, por três objeções: causa inversa (país rico compra judiciário bom), terceira variável que causa as duas, e uma medida dada por quem já sabe se o país é rico. Nenhuma se resolve com mais dado do mesmo tipo, só com variação na causa que não venha da renda. Acemoglu, Johnson e Robinson propõem a cadeia: mortalidade de europeus nas colônias (séculos XVII a XIX) → colonizar para extrair ou para povoar → instituições coloniais → instituições hoje → renda hoje. Duas hipóteses fortes: o desenho institucional sobreviveu, e a doença de então não tem outro caminho até a produtividade de hoje.
Um instrumento precisa de três condições, e só a primeira é testável — essa assimetria organiza a aula. A exclusão não se calcula: defende-se com história, daí as oito páginas de narrativa colonial do artigo.
A evidência
Números do recorte: primeiro estágio −0,607 (a mortalidade move as instituições), forma reduzida −0,573 (a mortalidade prevê a renda direto, mesmo número nos dois mundos), e a variável instrumental em 0,944 — um ponto a mais de proteção causa 157% mais renda.
A cadeia ainda de pé em 2022: a mortalidade colonial prevê o estado de direito de hoje (−0,354, t = −5,07; o índice tem média mundial 0, e o Brasil marca −0,44). Aplicar 0,944 à distância Nigéria–EUA prevê 67 vezes de diferença de renda contra as 30 observadas — erro de medida atenuando o MQO, ou exclusão violada?
Números para lembrar
- 0,944 — VI: um ponto a mais de proteção causa 157% mais renda · recorte do curso
- −0,607 — primeiro estágio: a mortalidade move as instituições · recorte do curso
- −0,354 — mortalidade colonial prevendo o estado de direito de 2022, t = −5,07 · recorte
- 67× contra 30× — o VI prevê mais que a distância inteira entre EUA e Nigéria (renda de 1995): sintoma, não credencial · recorte
- 0,29 — instituições com a malária no segundo estágio, caindo de 0,94, e ainda significativo · Sachs (2003)
- 71 — taxa de mortalidade que o Brasil compartilha com sete países, 16,7 × 4,25 · Albouy
A controvérsia
Albouy mostra que só 28 dos 64 países têm taxa vinda do próprio território — no recorte, 42 dividem a taxa com outro país da amostra —, e dezesseis latino-americanos usam mortalidade de bispos multiplicada por um fator. Agrupar o erro-padrão não derruba o resultado. Sachs argumenta que a malária derruba produtividade hoje por um caminho fora das instituições; Glaeser, La Porta, López-de-Silanes e Shleifer contra-argumentam que o que persistiu foi capital humano — a variável mede desfecho, não regra.
Nunn replica a arquitetura com os quatro tráficos de escravos da África, instrumentados por quatro distâncias. O padrão comum às críticas, inclusive a de monocausalidade: cada uma ataca uma condição do instrumento, não os números.
O que esta aula não resolve
A crítica de Albouy não é decidível com o dado publicado: "o teste não deu nada" e "não existe teste aqui" são coisas diferentes. A história restringe, mas não determina — Singapura e Malásia têm o mesmo colonizador e a mesma taxa, e hoje divergem em 4,2 vezes de renda (2022, a PPP), porque o instrumento não separa dentro de um grupo com a mesma taxa.
Para o Brasil o instrumento não carrega informação própria — a taxa de 71 é compartilhada com sete países. E extrapolar o coeficiente de persistência para prever o ganho do Brasil fechando a distância institucional até os EUA é o mesmo erro de Solow com a Índia: correlação entre países lida como botão.
O produto da aula
Um parecer de validade causal em quatro itens: a alegação em uma frase (quem causa o quê, em que população, medido como), a evidência com um número, a ameaça mais séria à identificação com o veredito sobre ela ser testável com o dado disponível, e a conclusão — procede, procede parcialmente, ou não é decidível — com a condição que mudaria esse veredito.
Leituras
- Acemoglu, Johnson e Robinson (2001), "Colonial Origins", e Nunn (2008): a mesma arquitetura.
- Albouy (2012) — a crítica de procedência do dado de mortalidade.
- Sachs (2003) — a crítica geográfica, com o teste que a aula cita.
- Glaeser, La Porta, López-de-Silanes e Shleifer (2004) — a crítica institucional.