Notas de aula · Encontro 04 · 18/08

Instituições, geografia e história

Pergunta central

Como se prova que uma causa que agiu há séculos é responsável pela renda de hoje, e como se sabe quando essa prova não está de pé?

Conceitos

  • Persistênciaa hipótese de que um arranjo institucional sobrevive a independências e constituições novas.
  • Variável instrumentalterceira variável que move a causa suspeita sem relação com o resultado.
  • Mecanismo históricoo caminho pelo qual um choque antigo chega até a renda de hoje.
  • Relevânciaa condição testável de um instrumento: ele de fato move a causa suspeita.
  • Exclusãoo instrumento não afeta o resultado por outro caminho; não é testável.
  • Independênciao instrumento não está ligado a outras causas do resultado.

O mecanismo

Acemoglu, Johnson e Robinson propõem a cadeia: mortalidade de europeus nas colônias (séculos XVII a XIX) → colonizar para extrair ou para povoar → instituições coloniais → instituições hoje → renda hoje. Duas hipóteses fortes: o desenho institucional sobreviveu, e a doença de então não tem outro caminho até a produtividade de hoje.

Um instrumento precisa de três condições, e só a primeira é testável — essa assimetria organiza a aula. A condição de que tudo depende não é calculada por software nenhum: defende-se com história, daí as oito páginas de narrativa colonial antes da primeira tabela do artigo.

A evidência

Ler "Colonial Origins" junto de críticas sobre instrumento, amostra e monocausalidade. Números do recorte: primeiro estágio −0,607 (a mortalidade move as instituições), forma reduzida −0,573 (a mortalidade prevê a renda direto, mesmo número nos dois mundos), e a variável instrumental em 0,944 — um ponto a mais de proteção causa 157% mais renda.

A cadeia ainda de pé em 2022: a mortalidade colonial prevê o estado de direito de hoje (−0,354, t = −5,07). Aplicar 0,944 à distância Nigéria–EUA prevê 67 vezes de diferença de renda contra as 30 observadas — erro de medida atenuando o MQO, ou exclusão violada?

Números para lembrar

  • 0,944VI: um ponto a mais de proteção causa 157% mais renda · recorte do curso
  • −0,607primeiro estágio: a mortalidade move as instituições · recorte do curso
  • −0,354mortalidade colonial prevendo o estado de direito de 2022, t = −5,07 · recorte
  • 67× contra 30×diferença de renda que o VI prevê entre EUA/Nigéria, e a observada · recorte
  • 0,29instituições com a malária no segundo estágio, caindo de 0,94 · Sachs (2003)
  • 71taxa de mortalidade que o Brasil compartilha com sete países, 16,7 × 4,25 · Albouy

A controvérsia

Albouy mostra que só 28 dos 64 países têm taxa própria — 42 dividem a sua com alguém, e dezesseis latino-americanos usam mortalidade de bispos multiplicada por um fator. Agrupar o erro-padrão pela repetição não derruba o resultado, mas exige saber a fonte de cada taxa. Sachs argumenta que a malária derruba produtividade hoje por um caminho fora das instituições; Glaeser, La Porta, López-de-Silanes e Shleifer contra-argumentam que o que persistiu foi capital humano — a variável mede desfecho, não regra.

Nunn replica a arquitetura com os quatro tráficos de escravos da África, instrumentados por quatro distâncias. O padrão comum às críticas: cada uma ataca uma das três condições do instrumento, não os números.

O que esta aula não resolve

A crítica de Albouy não é decidível com o dado publicado: "o teste não deu nada" e "não existe teste aqui" são coisas diferentes. A história restringe, mas não determina — Singapura e Malásia têm o mesmo colonizador e a mesma taxa, e hoje divergem em 4,2 vezes de renda, porque o instrumento não separa dentro de um grupo com a mesma taxa.

Para o Brasil o instrumento não carrega informação própria — a taxa de 71 é compartilhada com sete países. E extrapolar o coeficiente de persistência para prever o ganho do Brasil fechando a distância institucional até os EUA é o mesmo erro de Solow com a Índia: correlação entre países lida como botão.

O produto da aula

Um parecer de validade causal em quatro itens: a alegação em uma frase (quem causa o quê, em que população, medido como), a evidência com um número, a ameaça mais séria à identificação com o veredito sobre ela ser testável com o dado disponível, e a conclusão — procede, procede parcialmente, ou não é decidível — com a condição que mudaria esse veredito.

Leituras

  • Acemoglu, Johnson e Robinson (2001) e Nunn (2008) — a mesma arquitetura de instrumento.
  • Albouy (2012) — a crítica de procedência do dado de mortalidade.
  • Sachs (2003) — a crítica geográfica, com o teste que a aula cita.
  • Glaeser, La Porta, López-de-Silanes e Shleifer (2004) — a crítica institucional.