Notas de aula · Encontro 11 · 13/10

Firmas, má alocação e transformação estrutural

Pergunta central

Por que a produtividade varia tanto dentro do mesmo setor, e por que também varia entre setores e territórios? A noite fecha em círculo: sobe da firma ao setor, e o dado brasileiro devolve a pergunta para dentro da firma.

Conceitos

  • Heterogeneidade — firmas do mesmo setor produzem muito diferente — fato em todo país medido.
  • Distorção (cunha) — crédito caro, imposto assimétrico, energia que falta, markup acima do custo marginal — a firma vê o preço errado.
  • Má alocação — o produto marginal difere entre firmas, e mover recurso aumenta o produto total.
  • Dualismo e transição precoce — o setor tradicional ao lado do moderno que poderia absorver — ou a saída da agricultura direto para serviços ruins.

O mecanismo

Três degraus, e o do meio é o que se pula. Dispersão entre firmas é normal e não prova desperdício; o que a transforma em desperdício é a **distorção**. Se a firma enfrenta crédito caro, tributo assimétrico ou energia intermitente, ela escolhe bem dado o preço que vê — e ele não é o social. Somadas, as cunhas fazem o produto marginal **diferir entre firmas do mesmo setor**, e mover um trabalhador da de produto marginal baixo para a de alto aumenta o produto total sem tecnologia nova. A economia não move os recursos para quem sabe produzir.

Entre setores, o mecanismo prometido é o de Lewis: transferir trabalhador do produto marginal baixo para o alto se paga sozinho. Gollin e Rogerson mostram que não é automático — migrar custa, o moderno pode não absorver, e há quem vá da agricultura direto para serviços ruins, virando país urbano sem produtividade urbana.

A evidência

Hsieh e Klenow medem o desperdício com microdado de estabelecimentos: realocando capital e trabalho até o produto marginal se igualar **no grau em que já se iguala nos Estados Unidos**, a produtividade industrial subiria 40% a 60% na Índia e 30% a 50% na China. O contrafactual é modesto e parece ambicioso — imagina a Índia com as distorções americanas, que existem e são grandes.

O recorte de 21 países mostra o ambiente que produz as cunhas, não a má alocação: no Brasil, 61,6% das firmas competem com não registradas e 59,6% sofrem apagões, contra 5,7% na Alemanha. Na matriz setorial vem a virada: o **hiato agrícola quase não acompanha a renda** — correlação de −0,21 nos 21 países. A Coreia tem 3,36× com quase o triplo da renda brasileira; o Brasil tem 1,08×, mais plano que os Estados Unidos.

Números para lembrar

  • 40 a 60% e 30 a 50% — ganho industrial ao equalizar produto marginal, Índia e China · Hsieh e Klenow
  • metade e um terço — da diferença industrial com os EUA é má alocação, China e Índia · HK 2009
  • 1,08× contra 3,36× — hiato agrícola, Brasil e Coreia do Sul, com renda quase três vezes menor · WDI
  • 0,93 · 1,16 · 0,96 — produtividade relativa brasileira: agricultura, indústria, serviços · WDI
  • 61,6% e 59,6% — firmas brasileiras com concorrente informal e com apagão · Enterprise Surveys 2025
  • 4,43× — a indústria etíope contra a média nacional, empregando 6,4% do país · WDI

A controvérsia

Gestão ruim é causa da baixa produtividade, ou sintoma de um ambiente que não pune quem gere mal? Bloom e Van Reenen medem práticas gerenciais e acham correlação forte com produtividade, com cauda longa de firmas mal geridas nos países pobres. A leitura oposta: a firma mal gerida sobrevive porque o ambiente a protege — se o concorrente informal não paga imposto, gerir mal não custa a saída do mercado. Decidiria um experimento que melhore a gestão **sem** mexer no ambiente e veja se o ganho persiste.

O que esta aula não resolve

O perfil plano em três baldes **não prova ausência de má alocação entre setores** — a média de “serviços”, 72% do emprego, esconde tanto quanto a média de um setor esconde firmas. O que ele derruba é o mecanismo de Lewis, que exige uma massa presa num setor de produto marginal muito baixo, e essa configuração apareceria em três baldes se existisse. Também não mede a dispersão dentro dos setores: isso vive em microdado (PIA, RAIS). As colunas de Enterprise Surveys descrevem o ambiente, com anos de 2017 a 2025. Nada aqui é territorial — a leitura por município é pendência declarada. E o hiato agrícola bruto **superestima** o verdadeiro: Gollin, Lagakos e Waugh mostram que ele encolhe ao ajustar horas e escolaridade, embora permaneça grande.

O produto da aula

Diagnóstico de produtividade de um setor brasileiro: a decomposição em composição, distorção e gestão, com cada item marcado como **medido, inferido ou suposto**; a posição na matriz emprego × produtividade; e a leitura de **transformação estrutural**: uma **hipótese rival de lugar** (infraestrutura ou distância a mercados), o corte territorial que a separaria da explicação de dentro da firma e o resultado que mudaria a conclusão. É bom quando a marcação é honesta: tudo "suposto" não é diagnóstico, tudo "medido" está mentindo.

Leituras

  • Hsieh e Klenow, *Misallocation and Manufacturing TFP in China and India*.
  • Bloom e Van Reenen: práticas gerenciais medidas de forma comparável entre firmas e países.
  • Lewis, e Gollin e Rogerson: o modelo dual, e por que a transferência não é automática.