Notas de aula · Encontro 06 · 01/09

Ideias, inovação e a fronteira tecnológica (destruição criativa e IA)

Pergunta central

De onde vêm as ideias que escapam dos retornos decrescentes, e por que alguém paga para inventar algo que, pronto, o concorrente copia quase de graça? O que torna a ideia valiosa para todos (não se esgota no uso) é o que dificulta financiá-la sozinho.

Conceitos

  • Bens não rivais — usados por qualquer número de pessoas ao mesmo tempo, sem se esgotar.
  • Exclusividade parcial — patente, segredo ou ser o primeiro; o que permite cobrar.
  • Crescimento endógeno (Romer) — a produtividade é objeto do modelo, não resíduo exógeno.
  • Destruição criativa (Aghion-Howitt) — a invenção nova substitui a antiga, não soma.
  • U invertido (Aghion et al., 2005) — inovação × concorrência não é monótona; pouca acomoda, demais encurta o lucro.
  • Modelo de tarefas — o processo é soma de tarefas; a automação atinge tarefa, não emprego
  • Deslocamento, produtividade e reinstalação — se o primeiro vence, é automação "so-so".
  • Direção tecnológica — substituir ou complementar o trabalho; o AIPI (FMI) mede o preparo

O mecanismo

Romer (1990) fecha a lacuna deixada pelo resíduo de Solow na Semana 3. Sendo não rival, a ideia não obedece aos retornos decrescentes do capital: cada uma se combina com todas as anteriores sem excluir nenhuma. Resta financiá-la, e o motor tem três peças em série: não rivalidade mais exclusividade parcial geram lucro de monopólio temporário, e é esse lucro esperado que paga a pesquisa. Tire uma das três e ele para. Aghion e Howitt (1992) acrescentam a invenção seguinte, que derruba o lucro de quem estava na frente: por isso proteção demais trava a fila, e proteção de menos impede que ela comece.

A segunda metade aplica o mesmo motor à IA, com uma peça nova: em vez de inventar um produto, ela automatiza tarefas de um processo que já existe. A pergunta vira o que acontece com o trabalho quando a tarefa dele passa a ser feita por máquina, e a resposta é uma corrida entre os três efeitos, não uma conclusão do modelo. O caixa de banco virou gerente; nada garante que isso se repita.

A evidência

Em 20 países (WIPO, UNESCO e WGI; 2023, P&D de 2020 a 2023), a intensidade de pesquisa e desenvolvimento sobe com a renda. É correlação, e é a armadilha da Semana 4 com outra variável: o rico pode só ter mais dinheiro sobrando. O recorte separa ainda duas medidas que se confundem: a China lidera o volume bruto de pedidos de patente por origem (de residentes do país, em qualquer escritório), mais que EUA, Japão, Coreia do Sul e Alemanha somados, e mesmo assim fica atrás de Coreia, Alemanha e EUA por habitante. As implicações de política de Romer e Schumpeter dependem da medida.

Sobre a IA, três previsões de dez anos discordam; PIB com PIB, Acemoglu (0,93% a 1,56%) e Goldman Sachs (7%) ficam a 4,5 a 7,5 vezes. A diferença é de método: Acemoglu constrói de baixo para cima (tarefas expostas, fração automatizável com lucro hoje, corte de custo por tarefa) e chega a um número pequeno porque cada premissa é modesta; Goldman Sachs e McKinsey partem de cima para baixo, do ganho histórico de tecnologias anteriores. Nenhuma tabela decide qual método está certo.

Números para lembrar

  • 161× — patentes por milhão, Coreia do Sul (5.568) contra Brasil (34,6) · WIPO, 2023
  • 1.642.507 — pedidos da China, mais que EUA, Japão, Coreia e Alemanha somados · WIPO
  • 1.164 por milhão — a mesma China por habitante, atrás de Coreia, Alemanha e EUA
  • 6,35% contra 0,27% — P&D sobre o PIB, Israel contra México, quase 24 vezes · UNESCO
  • 0,66% contra 7% — PTF (Acemoglu) contra PIB (Goldman); PIB com PIB, 4,5 a 7,5×
  • 0,80 contra 0,38 — AIPI de Singapura (1º de 174) contra Bangladesh (113º) · FMI

A controvérsia

A previsão macro sobre IA é a disputa aberta da noite. Vale também a objeção inversa, que a aula levanta sem fechar: a Coreia cresceu décadas sob proteção fraca de propriedade intelectual, o que sugere que imitar barato serve a quem está atrás, e inventar protegido a quem já chegou. Se for assim, o motor de Romer explica a fronteira melhor do que a corrida até ela.

O que esta aula não resolve

A direção da causalidade entre pesquisa e renda segue indecidida: nenhum dos 20 países foi sorteado para gastar mais, e o mesmo padrão apareceria se pesquisa fosse gasto de luxo que a renda financia. Na IA é pior: a previsão de dez anos ainda não tem resultado com que ser confrontada. Duas lacunas ficam declaradas: o Brasil não tem AIPI confirmado no recorte, e o valor de Bangladesh vem de fonte única.

O produto da aula

A folha do ângulo aplicado à IA, uma por bancada, que trata a IA como caso do mesmo mecanismo. Os cinco grupos mantêm o ângulo do mapa causal e respondem por escrito uma pergunta cada, como quem paga o próximo treino se qualquer um copia o modelo. Cada folha traz o número do Bloco 2 que sustenta a resposta, o veredito sobre se o ângulo atravessa e a condição que o mudaria. Entrega avaliada, recolhida na Semana 7.

Leituras

  • Romer (1990), "Endogenous Technological Change": a ideia não rival e seu lucro.
  • Aghion e Howitt (1992), "A Model of Growth through Creative Destruction": a substituição.
  • Acemoglu (2024), "The Simple Macroeconomics of AI": a conta de baixo para cima.
  • Acemoglu e Johnson, *Power and Progress*: quem decide a direção da tecnologia.