Encontro 04 · Laboratório

Júri de evidências

Cada grupo abre só o próprio cargo e defende ele até o professor avisar.

Júri de evidências

Oficina I · Bloco 1 · 20 minutos

A tarefa, igual para todos

  1. 1A alegação de vocês, em uma frase — o que exatamente vocês estão dizendo.
  2. 2O número da folha que a sustenta, e em que direção ele aponta.
  3. 3Isso é testável com o que está na mesa? Se sim, qual é o teste. Se não, que dado faltaria — e quem teria que produzi-lo.
  4. 4Preparar uma defesa de dois minutos.

Cargo 1 de 5

Acusação

As instituições coloniais causam — e não apenas acompanham — a renda de hoje.

O que está na mesa

Onde os europeus morriam dez vezes mais, entre os séculos XVII e XIX, a nota de proteção à propriedade hoje é cerca de 1,4 ponto menor, numa escala de 0 a 10. É uma relação forte, e ela dá o ponto de partida da acusação.

Usando essa mesma mortalidade como pista, cada ponto a mais na nota de proteção à propriedade vem acompanhado de mais que o dobro de renda — cerca de 157% a mais. É um efeito grande o bastante para desconfiar dele, e é isso que a noite inteira vai testar.

A mesma relação, medida hoje: nos 63 países com renda de 2022, cada ponto a mais naquela nota antiga de proteção ainda acompanha cerca de 69% mais renda — quase trinta anos depois.

E o mais forte de todos: a taxa com que os colonizadores morriam de febre, há duzentos anos, ainda prevê a qualidade do judiciário e da polícia de um país hoje — uma relação estatisticamente muito confiável, não um acaso da amostra.

O último é o mais forte que vocês têm: a taxa com que europeus morriam de febre no século XIX ainda prevê a qualidade do judiciário de um país em 2022.

Cargo 2 de 5

Geografia

A doença age direto sobre a renda de hoje, sem passar por instituição nenhuma.

O que está na mesa

Ligando direto a mortalidade dos colonizadores à renda de 1995, sem passar pela nota de instituição no meio: a relação é forte e precisa. Essa conta, sozinha, não diz se o caminho é a instituição ou a doença — as duas explicações são igualmente compatíveis com ela.

Colocar a latitude do país na conta — uma forma grosseira de capturar clima e doença — quase não muda o resultado da Acusação. Isso enfraquece a ideia de que é só "estar no trópico" fazendo o efeito.

Essa é a mesma estimativa central da Acusação: cada ponto a mais de proteção à propriedade dobra a renda prevista, nos 64 países da amostra.

Dos 64 países da amostra, 27 são africanos — a região onde geografia, doença e colonização mais se confundem, e por isso a que mais pesa nesta crítica.

O primeiro número é a peça central de vocês: ele é exatamente o mesmo se a mortalidade age pelas instituições e se age pela doença. Latitude não é doença — o controle do artigo responde à versão fraca da crítica de vocês.

Cargo 3 de 5

Amostra

O resultado depende de quem está na conta — mude a amostra e ele muda.

O que está na mesa

Com os 64 países da amostra, cada ponto a mais de proteção à propriedade dobra a renda prevista. É o número da Acusação, o ponto de partida da discussão.

Tirando os países africanos da conta, o efeito cai quase pela metade — de 0,944 para 0,578, nos 37 países restantes —, mas continua grande e preciso.

Mesmo sem o instrumento, só na correlação simples, tirar a África também derruba um pouco o número: de 0,522 para 0,482.

Os países africanos são 42% da amostra — quase a metade. O que acontece com eles pesa muito no resultado final, para o bem e para o mal.

Tirar a África derruba o coeficiente em quase 40% — e ele continua grande e preciso. A pergunta de vocês é se “continua de pé” e “é o mesmo resultado” são a mesma coisa.

Cargo 4 de 5

Procedência do dado

A variável de mortalidade não mede o que diz medir.

O que está na mesa

A amostra tem 64 países — mas só 36 números diferentes de mortalidade colonial. Muitos países repetem exatamente a mesma taxa de outro.

Ao todo, 42 dos 64 países (66%) dividem a taxa com pelo menos um vizinho, e só 22 têm um número que é só deles. A lista completa de quem repete com quem está na tabela abaixo.

Uma taxa repetida pode ser porque os dois países realmente tinham o mesmo risco de doença — ou porque quem organizou os dados não tinha o número de um deles e usou o do vizinho "parecido". A tabela não decide qual dos dois casos é o de cada linha; só mostra onde a repetição está.

Isto é o dado, não uma leitura dele. Uma taxa repetida é erro de medida, ausência de medida, ou vizinho com o mesmo ambiente de doença — como o artigo diz?

Os grupos que dividem a mesma taxa

71 por mil8 paísesBolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guatemala, México, Peru, Uruguai
78,1 por mil5 paísesCosta Rica, Honduras, Paraguai, El Salvador, Venezuela
280 por mil5 paísesAngola, Burkina Faso, Camarões, Gabão, Uganda
130 por mil3 paísesRepública Dominicana, Haiti, Jamaica
668 por mil3 paísesCosta do Marfim, Gana, Togo
8,55 por mil2 paísesAustrália, Nova Zelândia
17,7 por mil2 paísesMalásia, Singapura
68,9 por mil2 paísesArgentina, Chile
78,2 por mil2 paísesArgélia, Marrocos
85 por mil2 paísesBahamas, Trinidad e Tobago
145 por mil2 paísesQuênia, Tanzânia
163,3 por mil2 paísesNicarágua, Panamá
240 por mil2 paísesRepública do Congo, República Democrática do Congo
483 por mil2 paísesGuiné, Serra Leoa

Cargo 5 de 5

Medida

“Proteção contra expropriação de investimento estrangeiro” mede resultado, não regra.

O que está na mesa

Chile e Argentina tiveram exatamente a mesma mortalidade colonial (68,9 por mil) e o mesmo colonizador — mas a nota de proteção à propriedade do Chile (7,818) é bem mais alta que a da Argentina (6,386). Se a nota mede uma regra fixa herdada da colonização, o que explica essa diferença?

Do outro lado: Singapura tem nota de proteção quase máxima (9,318, quase igual aos Estados Unidos, que tiram 10) — mas seu índice de democracia liberal (0,324) é menos de um terço do americano (0,763).

A nota mede se o investidor estrangeiro se sente seguro para investir, não se o país é uma democracia ou se as instituições são as mesmas de sempre. É essa mistura — segurança do investidor, não regra do jogo — que a crítica ataca.

A nota é dada por uma consultoria de risco político, para o investidor estrangeiro. Chile e Argentina têm a mesma mortalidade colonial e o mesmo colonizador; Singapura pontua quase o máximo com democracia liberal de um terço. O que essa escala mede?

Se vocês estivessem errados, o que apareceria na tabela? Levem essa resposta para a defesa.

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